2010-02-05

Vai passar?


Dedos estão fracos. É a cama que está gélida. Sem sentir o tato do poema, o que em nu cobri por completo. Não senti vontade de mexer as pálpebras, pois a lâmpada queimada mantém o músculo estacionado no lençol branco liso. O real invade em monotonia e compõe cenário desprovido de piscadela. A sala reflexo de desenhos do prantear, que exala a névoa cinza. Na coreografia sem sabor. O olfato na perda do prisma que chama para o íntimo. - Socorro ! A raiz é arrancada, e o caule, as folhas, os frutos e as flores, movem-se sem norte no palco. Na amostra do quanto dentro prossegue sem livro. A escrita é anúncio de luto, em grito no interior do olhar de outrora chamado amor. O cotidiano respira errado e solicita ar em cada verso espiado e esperado. O que se espera dói e o mar fica distante. Tudo fica nebuloso e turvo. A cor das palavras perpassa aroma desagradável, e na tentativa do largar a escrita, mas tal está grudada. Os passos da corrida do soneto retrato em preto e branco que teima coleção. Do som da alma em melodia que rega estágio de solidão. Início e meio. Mas: o fim ! ?

- Vai passar ?

- [...] tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, saberá ! O verão está aí, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada 'impulso vital'. Pois esse impulso, às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará para o sol, para o mar, para uma nova estrada e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim: como 'estou contente outra vez'. Abreu, Caio Fermando


. canteiro pessoal

2 comentários:

Lia disse...

Não sei se passará!
tem coisa que não passam! E ai, essas são as que mais doem!
feridas cicatrizadas ou mal cicatrizada!
que por mais que não doam tanto, ainda latejam e vc sente... principalmente em dias de chuva!

bjos e obrigada pelo carinho!

Canteiro Pessoal disse...

É e eis a questão: não sei se passará! A gente sobrevive, descobre meios para dizer: como estou contente outra vez! Lia, quando o amor que é o amor mesmo, bate à porta, é fatal, mas saboroso, e é este que nos ensina-amadurecimento.

Paz querida!