2010-03-18

Marear bocal


Os olhos na cor do mar, tudo a marejar em poemas feitos na voz que recupera o selo, a sabedoria inicial. E as estrelas olham o banho dado às madeixas, pois são os anelos do dono que não permite à noite a lua usurpar o brilho do amor, mar diz o mar, e vem beijar em proa. O som do silêncio, às mares dum corpo erguida nas verdes ondas do mar, que confirma e reúne. Passos caminhando nos trilhos sobrenaturais, real e denso, como ressuscitada. O que escuta do que tudo procura, porque vai rindo por seguir vivendo, no longe que não se está. A plenitude da presença que faz se desprender do desespero selvagem. Da raiva, amargura e escárnio. Uma angústia que pranteia em voz. Que voz ? Aflição que encontra voz, dor muda. É na noite fria, de vazio, o sofrimento exposto trazendo o retrair aquém da eternidade. Ao sol que vem, queima. Mas, outra vez inteira, a voz devolve dizendo sim para o amor. A criação na tela dos olhos no olhar, refazendo o céu e o mar profundo. Se o barco afundar, no jeito infantil querendo estar prestes a silenciar gestos enrolados nas dobras do manto. Na solidão escura, que alimenta a saudade no rosto desenhado, sentar à mesa do jantar. Por toque que condena à liberdade, mesmo que se gastem mil silêncios. E dentro do sussurro do canto, recantar grito de apelo pelo fluxo do rio ao vento apregoado no levar a casa. A data presente correndo entre a compreensão nula dos porquês, por escrever de maneira absurda. Portanto, no cedo que se fala e calam bem fundo no coração, nas palavras abstratas como frutos que não estavam na fruteira. À espera da voz, como ímã esperado. E de repente, as lágrimas serem entregues em vaso de alabastro. Uma alma marcada a amar sem ver a atenção analítica conseguir nos versos definir o nome.


Das altas noites puras e suspensas
[...]
Coração atento ao rosto das imagens,
face erguida,
vontade transparente.


. canteiro pessoal

6 comentários:

doce anjo disse...

Sempre me pego em uma viagem quando leio seus textos, uma viagem ao subconsciente, me trazendo lembraças belas... otima noita anjo, adorei Bjuxxxxxx

Marquinhos

Naty Araújo disse...

Que lindo seu texto...
Entrei na dimensão deles.
Muito profundo e tocante.

Bjos, cativou-me.

Nadine Granad disse...

Que lindo mar-amar!!!
Força-nos a um repensar da nossa consciência crítica em relação ao turbilhão que sentimos... e que normalmente fica-nos impossível expor!...

"Foi, pois, assim que o explorador descobriu, toda em pé e a seus pés, a coisa humana menor que existe. Seu coração bateu porque esmeralda nenhuma é tão rara. Nem os ensinamentos dos sábios da Índia são tão raros. Nem o homem mais rico do mundo já pôs olhos sobre tanta estranha graça. Ali estava uma mulher que a gulodice do mais fino sonho jamais pudera imaginar. Foi então que o explorador disse, timidamente e com uma delicadeza de sentimentos de que
sua esposa jamais o julgaria:
— Você é Pequena Flor.”

(trecho de “A menor mulher do mundo" - CLARICE LISPECTOR)


Abraços!

Canteiro Pessoal disse...

"(...)
Mas se amo os teus pés
é só porque andaram sobre a terra
e sobre o vento
e sobre a água,
até me encontrarem."

Pablo Neruda

Priscila Rôde disse...

Fiz uma viagem maravilhosa nesse texto.


Um enlevo!


Parabéns!

Juan Moravagine Carneiro disse...

Priscila têm uma frase de Pollock em relaçãoa sua pintura que acredito se encaixar na forma com que você adentra em seus textos e comentários..."Não deixo a imagem carregar a pintura", ou seja, apesar de você tabalhar com a questão da "estética visual" das palavras em seus textos, por outro lado consegue não perder a sensibilidade e a profundidade do mesmo.
Me atrevo a dizer que vc diz saber menos do que realmente sabe, e isso é algo respeitável, afinal vivemos em uma realidade "literaria" que como diz bem Alexandre Soares Silva "qualquer coleção de contos de Penguin vale mais do que um curso universitário", no sentido que a essência da literataura e sua representatividade estética cada vez mais está distante das pessoas, universidades, etc.!
É fácil se dizer que é um poeta dificil é viver como um, Dostoiévski diz que um escritor necessita de três coisas para poder escrever uma literatura de qualidade "sofrer, sofrer e sofrer".
Para não me alongar, mais uma vez reintero a importância dos "vasos comunicantes" não importando como, afinal, infelizmente não contamos com figuras como Sylvia Beach em nossos dias.