2010-03-14

Dentro


Por dentro muda e desnuda no que se muda. Carta fechada ? Não fala, range. Não olha, tange. Ensinaram a grafia, só que não interpretar a respiração de uma voz. E o conhecer as lacunas nos olhos, sempre por direcioná-la ao superficial em alta no globo. O teor das falas sem vestígios de candura. No escuro, ouve-se o ruído do trânsito. O grito de seres com sede. A lágrima cardada e crescendo dentro de um abismo. O telhado como um lamento. Numa linha que fala muda, mas é tilintar dos elétricos. Quando se chega às curvas, o céu está despencando e os olhos turvos não captam o socorro. Nisso, bate a solidão. E a alegria esmiuçada no dicionário não é bem uma festa. Quem ouve os tons altos de almas sentadas à porta ? Sempre que se apunhala o silêncio, o resultado não é do agarrado. Mas, canta-se o desespero. E na maneira como fala é saqueado o tino de um toque que rasga o véu. Os livros cantam silenciosamente mistérios. E diz em nível profundo, que, quando se senta na relva, o sorrir entra em cena e anuncia que há uma criança que brinca e cresce dentro do bosque. Como se cobrisse pelas páginas e as madeixas se afagassem de ternura. E renascem os longos silêncios antes ao pedido. O falar do primeiro amanhecer. E os corpos partilham frases em respiração. Espaços são tomados por dóceis mãos férteis aos campos primaveris. A sintaxe não asfixia, nem rastro de trevas. Apropriação da escuta ? Afinal de contas, os silenciosos tons escrevinham grandes capítulos. No sorriso redescoberto, fixa-se na face demorada que é tinta das palavras e não escreve como se escreve, mas versos adormecidos ao desadormecido. Os longos silêncios enamorados. E jubilosa, ave rara matutina, as asas dobram-se ao vento. O olhar é vencido pelo indizível e palavras declaram nudez. Encontro das mãos, grito submerso nos lençóis que exalam fragrância.


O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube que ias comigo,
até que as tuas raizes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Neruda, Pablo

. canteiro pessoal

3 comentários:

Vanessa Souza Moraes disse...

Ah, ouvir o indizível...

Escreves bem, mocinha ;)

Juan Moravagine Carneiro disse...

O silêncio, o ausente e suas respectivas representatividades quase sempre se fazem presentes nas prateleiras carregadas de ilusões alheias.

Canteiro Pessoal disse...

Vanessa,

o que é escrever bem? Tão pouco atribuo esse dom, mas obrigada de coração pelas gentis palavras. Apenas vomito o quanto amadora sou em palco literário.

Juan,

toda vez que leio-te por aqui, o agraciamento pousa em minhas asas muitas vezes feridas. Amo abrir meus comentários e encontrá-lo entrelinhado, seus acrescimos são cheios de linhas com sabor de vinho.

Obrigada, vaso!