2010-04-28

Escuro clarear, claridade?


O sono sempre vem, mas logo se esvai, pois é tirado de si. O ser ilegível no escuro à busca da fresta luminar sendo um projeto de estudo desestudado. Não aprecia escrevinhar em primeira pessoa, senti-se assim em observação e as claras para a plateia. Só o interesse partiturar quando surpreende com o que escreve em entrega. Pois, ser linguagem incomum pincela mistério, e o segredo não fica à vista. O fantástico prescindir da realidade porque pode ter tudo através do pensamento renovado. Há o grito, e bem estridente na alma, fazendo cair em prantos e no ósculo ardente. Verdade ? Quando de repente uma tal fome da coisa acon­tecer mesmo que morde num grito a realidade com os dentes dilacerantes. Um sopro de vida em morte, morte vival de novo, pres­cindir-se da realidade real e aconchega em viver da imaginação. Loucura o letral ? Sim ! Suspiro o inspirar suspirar sobre a presa cuja carne comi. O que ingerido ? Os fatos e sentimentos no sonho que brin­cam com o reflexo. Mas reflexo não está num espelho, mas reflete uma outra pessoa que não é si. Mas o vício dos toques aos lugares desconhecidos, claro que, em pele faz vista grossa e se esquiva. Afinal de contas, torna-se assombroso por tantas miudezas e entulhos desnecessários. Mas, esse jogo de palavras clareado nos olhos, enlouquece ao ponto da nula razão e o trilhante impalpável reina. E daquele quarto escavado, janela da alma, faz o perder-se de vista superficial na enorme extensão de telhados tranquilamente escaldando ao sol. O momento em que a escrita faz uma dor bater à porta, porta do que fala o que tem ouvidos ouça. O deserto nu e ardente abri para o que precisa aprender. E quando cai na escuridão, o frio consome, tudo se treme como nas noites do deserto em leitura única, impagável do dentro. Não que faça por mal, mas para que a decisão seja perpétua no inexistente receio de se fechar e abrir na boca dos leões. Adulta não entranhada em cavernas, e a estagnação do alfabético indelével seja ignorado. O que chama fuga perca voz por não o que foge, não viver na rota dos atalhos.



... é inexplicável e vivo, procura me entender: assim como o protoplasma e o sémen e a proteína são de um neutro vivo. E eu estava toda nova, como uma recém-iniciada. Era como se antes eu estivesse estado com o paladar viciado por sal e açúcar, e com a alma iniciada por alegrias e dores - e nunca tivesse sentido o gosto primeiro. E agora sentia o gosto do nada. Velozmente eu me desviciava, e o gosto era novo como o do leite materno que só tem gosto para a boca de criança. Com o desmoronamento de minha civilização e de minha humanidade.


Lispector, Clarice


. canteiro pessoal

8 comentários:

Juan Moravagine Carneiro disse...

Não me pergunte o motivo...mas este post...principalmente a imagem me fez lembrar de Denise Stoklos...rsr.s.!

Canteiro Pessoal disse...

Juan, lisonjeada! Como comenta o crítico Yan Michalski sobre Stoklos: "(...) por trás do resultado convincente está não só uma inteligência criativa, mas também uma técnica segura e variada. Gestos nítidos, precisos, desenhados com elegância; um domínio do corpo que permite extrair efeitos surpreendentes desse fundamento da gramática mímica que é a variação rítmica; um rosto expressivo, versátil, capaz de intensas mutações; e uma arguta escolha dos poucos objetos usados como apoios, quer se trate de máscaras ou de objetos de uso cotidiano transformados em símbolos".

Abraços!

O Espelho de Eva disse...

Esse seu texto tem um ar irritante de insônia. Uma coisa que mexe por dentro um que de desabafo... de grito que se abafa... de noite que se estende além do esperado... de rolar prum lado e pro outro na cama... de manhã que vem chegando lenta, raio a raio de sol. Os olhos inchados, a cabeça meio tonta, é hora de levantar.

Beijos, Bela e rara ave.

Didi. disse...

Muito feliz com sua visita.
Bonito blog.

Abraço

Eliana Lee / Lu Maria disse...

Pri querida! Embriago-me com suas palavras que possuem vida exuberante, autêntica e profunda. Na luz ou na escuridão, jamais permitem-me conhecer as trevas!

Abraços com amizade.
LU MARIA

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Querida amiga.

Hoje a minha visita é para agradecer.
Nestes dias que celebro a minha vida,
tenho certeza de que a mesma
não teria o brilho de hoje,
se não fossem os amigos e amigas
que a tornam valiosa
mesmo que distantes.

A ti gostaria de dizer obrigado:
Obrigado pelas visitas ao meu blog.
Obrigado pelas palavras semeadas.
Obrigado por sentir os meus textos
com os olhos do coração.

Sou eternamente grato a vida,
por mais estes presentes
que de modo gentil
deixas em minha vida,
fazendo de mim uma pessoa melhor,
e pleno de felicidade.

Lindos dias de vida para ti.

Canteiro Pessoal disse...

Aluisio. Que belo escrito de agradecimento à vida, a tua. Escuta-se pelo mundão tanta reclamação da existência, enquanto tu aprecias a que o criador te ofertou em honra. Portanto, desejo-te o melhor cem vezes mais ao teu celeiro, uma fartura em todas as áreas de seu existir .

Parabéns!

Petro disse...

Clarice...toca em nós. Amo este blog e vir aqui para ser gente grande e menos gauche na vida.