2010-05-05

Num canto estranhíssimo



Enfim, teve um sonho, o olhar na construção velha. Tudo meio encoberto, tateava e buscava os sapatos atrás da árvore. Por causa deste sonho, a pena começou a bailar. A noite caiu e soava a sina, fazendo voejar no mais: a descoberta. Os galhos balançavam em calmo murmúrio, e as nuvens escureciam, tanto que, temendo o aperto dos olhos começa a oceanear o 'tu nombre em mayusculas'. À procura do rosto nu. Para além, às pontas dos dedos cadê a alma ? E as faces que escondiam a identidade ? Da volta penosa, com impulso e êxtase em corda bamba. E do dentro que fala no esboço à impressão de rastejo na poeira, com os pés doídos e desesperados. Da escrita partiturar o que não se quer dizer, mas o que corre veloz e não se submete aos estereótipos e concepções mundiais de beleza. E de repente, num prantear o fato: se não tomar cuidado vira um número para si. Pois no sistema tudo é número. Mas, não ! A intimidade não deixar, fazer-se morada nas batidas insistentes. Veja, várias vezes na vida lutando por não ter um número e se escapar. O que fazer com que se precise de carinho, de nome próprio e de genuinidade ? Portanto, amar que o amor não tem número. Numa tarde plena, pensava: - Ou camuflado o número ?


[...]


Bem sei que uma das qualidades de um ator está nas mutações sensíveis de seu rosto, e que a máscara as esconde. É a liberdade horrível de não ser. E a hora da escolha.


Lispector, Clarice


. canteiro pessoal

3 comentários:

Gerana Damulakis disse...

Uma questão numérica interessante. Bacana o texto.

Juan Moravagine Carneiro disse...

Me fez lembrar um livro que se chama Planolândia...

Como sempre escritos intensos e profundos...!


Abraço

O Espelho de Eva disse...

Lindo, lindo, lindo!
E que bom que gostou da minha última postagem.
Beijos.