2010-07-14

fixar-te

[Silêncio]


Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas, ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com você.





Há um recorte em teus dedos, e meu coração ainda pulsa. Uma página amarelada em meio à tinta que se desperdiça. Sabido que a pena sobre a textura em tango abrilhanta apenas à hora da partida não agrada, o espaço desfigura os passos expressos com sintonia. Por que quilômetros colam pontos finais ? O ficar sós contigo adoça meu café amargo e se reproduz um som, que cria vôos. Não há como não te sentir, teu cheiro chama para ti, o repousar em concha. Impossível não perceber teu perfume em mim, tuas mãos tocam meu rosto, minhas mãos tocam tuas vestes, tua pele e teus belos lábios no tudo que és em delícia. O meu coração se depara no encontro do teu e nasce uma canção. Águas vivas a percorrer em minhas artérias, alma por te desejar e o espírito anela por entrelaçar, cada dia sendo levada a mergulhar em teus traçados, contornos ante uma forma vazia e uniforme. Meu desejo há brilhos em olhos, da busca fluída à pele num céu que se rasga com o despencar do véu de uma cachoeira em pétalas e se pisa no tapete que não apaga o mar. Nas noites escuras, meu olhar aceso observa seu movimento e seus passos mesmos em distância dizem às trancas que se despem a entrada atenta da tua captura. Longe, perto, mais perto, mais igual, mais solto e mais preso. Lua no lugar do espelho à lagoa tua face, o sol no aquecer meu fora e dentro com goles de teus ósculos dos vinhedos. O que não tem muito sentido, mas o pensamento criptografa o exato minuto dos degraus e se sobe em brisas no desnudar com coragem à primavera que flui e consenti a palavra desfolhada, costurada com um coração que não mais se esconde em páginas que querem núncio do sair. Tenho-te em pedaços, mas meus pés estão descalçados pisando na areia, que entendi o chamado do teu inteiro. Vi tuas pegadas, e elas não foram apagadas pelas ondas, a lembrança continua forte e presente no abrir e fechar de meus olhos. Resta-me não restar, sim numa visão de mar profetizar que te tenho aqui selado nas minhas batidas e colocado reticências nas partes conduzidas ao lugar reservado: quente, molhado e úmido. No querer que saiba, entre os meus dedos sinto as marcas das letras e no escuro quarto não disfarço o anseio por ver borboletas fluorescentes, pousando em árvores transparentes. Há seu rosto que não é visto, mas, mesmo assim, quando passo a língua nos diálogos sinto suas intervenções inexplicáveis e o som que escutas, propaga-se em meu aposento o respirar fundo e te sorvo extremada à luz do amanhecer.



Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.


Hilst, Hilda


. canteiro pessoal

10 comentários:

T@CITO/XANADU disse...

Talvez Narciso as avessas!

E se me fita o espelho horrendo
Na vida respirada em sonho,
Eu estarei no sonho morrendo...

Mas nas faces mEus olhos ponho
E em todas Eu vejo desgosto,
Pois Eu vejo em todas mEu rosto!

lúdica ironia do olhar:
Cegueira, onde ver é pensar!
Na prisão eterna das trevas.

Tácito

Sr do Vale disse...

Priscila, se continuares assim, se transformarás em pluma..........e.......voo.

Canteiro Pessoal disse...

Sr do Vale. Transformar-me em pluma e voo, um bálsamo, adentrar na cabana e lá não sair mais, afinal o que há completa. Inebriante o movimento de um teclar fresco e com sabor de chuva. [Pausa] - Alguém quer tomar banho de chuva comigo? Escorre-me o agradecida sempre, só que, jamais satisfeita, sedenta sou pelo molhar nos meus lábios e me lambuzar, a maça do amor que gruda nos dentes, portanto, anseio o vaso transbordante sempre, como o véu de uma cachoeira em quedas que prenunciam desejos pelo rosto, pelo corpo da literatura colado ao meu, do amor que me assusta, raio trovão fazendo barulho, bagunça-me e chove em mim todos os dias.

Abraços.

Léo Santos disse...

A tua escrita me sacode, me joga pra lá e pra cá... É uma coisa tri doida! Bah! Catarina! Um dia podíamos escrever algo a quatro mãos né... Juntamos a minha cara de pau com a tua erudição... Pode dar certo! Feito o convite!

Um abraço!

Valéria Sorohan disse...

Que lindo... tão profundo e tão leve. Tão sereno e tão inconstante. Simplesmente fenomenal... És dotada de um dom único de escrever...

BeijooO

Boneca de Pano disse...

Obrigada plea visita!!!
Volte sempre que quiser!!!

Ah e o nome é um apelido carinhoso que ganhei...rs...

Beijos da Boneca!!!

Canteiro Pessoal disse...

Léo, ave rara, será uma honra construir um diálogo, um texto com uma temática que faz tremer a ossada ou um conto. A quatro mãos abrilhanta olhares, e muito sucede no âmago de ambos uma metamorfose.

Abraços.

Canteiro Pessoal disse...

Valéria, obrigada!

Boneca de Pano, amei visitá-la e sua visita ao jardim, também digo: Volte sempre que quiser!

Abraços belíssimas!

Canteiro Pessoal disse...

Tácito, o que dizer de ti? Palavras sempre me faltam, seu letrativo é exuberante.

olho-te
de perto me olhas,
cada vez mais de perto,
e então,
olho cada vez mais de perto
e meus olhos se tornam pequeninos
ante seu fragranciar letral.
aproximo
sobreponho,
respirando a tua boca bailante
mordendo os lábios da literatura,
apoiando
veloz a língua nos dentes,
e nas suas cavernas,
um ar pesado vai embora
vindo um perfume antigo
com um grande silêncio.

Abraços tesouro

A.S. disse...

Há palavras que ferem, queimam, como magma que corre nas veias. É dificil escrever quando o desejo espreita em cada linha, pois timidas são as teias onde tudo se arrisca na urgência do encontro de dois corpos ansiosos que sufocam em bocas de linho...


Quero dizer-te que ler-te é puro fascinio!

Abraços!
AL