2010-07-11

a terra

No café de Flore, três ou quatro colheres de açúcar afogavam o amargo do café. Beberam-no primeiro meus olhos como um ritual, os lábios, depois, na minha língua mais tarde escreveria...




A vaca no leito com pele branquinha tem o dono em pincel, pois as diversas pinturas atraem, e as marcas queimadas a ferro, o grito com faísca que não se apagam. A liberdade, mesmo que, embrenhada na vastidão do sertão, repousa na aparência gerada dos diálogos, que levados ao topo do cume, faz com que as metáforas percam a rota, com o sentir tão à flor da pele e a respiração em partículas tão sentidas. Dizem que a vaca é lunática, misteriosa e entrelinhada de forma incalculável, seu berro é tão forte no silêncio, que mesmo léguas e léguas de distância, podem ser ouvidas pelos tons da terra ressequida. As madeixas de perto nula visão, e sertanejo trêmulo nas luzes das pequenas fogueiras, com sua viola cantante em múltiplas cores, intervenções que recheiam a história do sertão intimal. A pele, por ditas fases, revela-se forte, vomita no atrás das palavras, quão fraca e ardente no incomum, o que faz vulnerável em extremo. Os órgãos com partituras no pouso sobre a boca que ama em delírios, subir a montanha e lamber em delícias a lua que se espelha na lagoa, a se refrescar e o mês de maio telando com que as cordas estejam em perfeita afinação.




Nunca te vi, que não tivesse o desejo de te rezar. Nunca te ouvi, que não tivesse o desejo de acreditar em ti. Nunca te esperei, sem o desejo de sofrer por ti. Nunca te desejei, sem ter também o direito de me ajoelhar à tua frente. Sou para ti como o bastão para o caminhante, mas sem te apoiara. Sou para ti como o cetro é para o rei, mas sem te enriquecer. Sou para ti como a última pequena estrela é para a noite, ainda que a noite mal a distinguisse e ignorasse a sua cintilação.


. J. T. Parreira
. canteiro pessoal
. do Livro: Correspondência Amorosa

8 comentários:

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Querida amiga.

Palavras tão inundadas
de vida,
que mais que comentá-las,
achei melhor
sentí-las.

Dias de paz para ti.

Mila disse...

Acho linda a forma como escreves...
Perfeição!
Bjs linda
Mila LOpes

Canteiro Pessoal disse...

Aluisio,

dias de paz que excede a todo entendimento. Vida cantante no embrenho de vale, pois é lugar que se venta, lá se vê as nuances do que o amor é expressão, levando comentários no trilho do silêncio e o melhor do sentir e contemplar o arvoredo no invento dum ballet.

Ave rara, obrigada pela preciosidade das tuas 'palavras tão inundadas de vida'.

Abraços.

Canteiro Pessoal disse...

Mila, diamante,

a forma que grafas, também é bela, toda vez que adentro em teus espaços um doce grafar leva meu pensamento as notas indeléveis. E meus olhos doidos pelo universo letrativo capturam em respeito o jorrar do sangue em tradução, fazendo-me aprofundar no ti do casado, que traz compromisso em minha terra muitas vezes ressecada.

Ave rara, obrigada!

Abraços.

Sr do Vale disse...

Tão lindo, tão lindo.

Desbururu disse...

Dois Momentos, duas ilustrações, duas conotações:

Desbururu disse...

A primeira .........


O Líquido da Introspecção.


Minha taça está cheia, e o líquido que ela contem é rejuvenecedor.
Meus olhos estão fechados, mas o calor que me chega as narinas é
perfeito, como o que passei em uma praia ensolarada, com areia fina e cheia de pequenas casquinhas de outrora moluscos alí residentes.
Meu cérebro encontra-se formalizando curvilineas ondas de prazer, ante este aroma que me chega as laterais de minhas mais finas veias cerebrais, onde os neurônios, como em uma ciranda alada, brincam cada vez mais freneticamente, absorvendo cada uma das possibilidades de fazer o prazer chegar a minha massa encefálica e alí me deleitar.
A taça está cheia de sabor vindo de locais outrora inalcançáveis, mas hoje possíveis até ao mais lento movimento do ser aprisionado
que com apenas poucas palavras se esvai no universo de todos nós.
As ondas de calor mencionadas estão enebriando também minha face, que sente sua suave ondulação em minha tez flanelada e pura como em cada amanhecer.
O meu universo foi preenchido pelo ópio de nossas manhãs, de nossos momentos de reunião, de nossos momentos de conversação, de nossos momentos de introspecção, como quando querermos estar com os olhos abertos e prontos para escutar as trombetas de nosso racionalismo e dele tirar conclusões sobre coisas inconclusivas, sobre deleites colocados em taças especiais, como esta chícara de café que ora tomo, e que depois irei deixar largada em qualquer espaço, em qualquer lugar onde houver uma pia.

Desbururu disse...

A segunda .........


Plataforma para Mim


Quero deixar de caminhar, somente voar, e fazer acrobacias, delinear sobre o existencial oxigênio minha passagem, que vibra e surta em flamas quando de encontro aos demais gazes que fazem de nossa existência plena uma exaltação a aquele que pensou até nestes mínimos detalhes que nos fazem questionar ainda mais, perguntas ainda mais sem respostas.

Quero planar sobre as folhas que foram deixadas no caminho, pelos pés de alguém que andou mas matas a procura de algo que estava nos galhos como pássaros que também se aconchegam nas folhas e produzem seus sons infinitamente mais maravilhosos do que o de minha boca simplesmente fechada e nada preparada para rumorejar qualquer som minimamente inteligével.

Quero ter o peso da gota de orvalho que se eleva ao céu como vapor de vida a querer se espalhar mais tarde no universo de outras tantas como ela de quaquilhões de irmãs, que depois de algum tempo que se encontram elevadas concentram-se e forçam-se a desprender de denominações cúmulos nimbescas, e agora possuidoras de potência avassaladora das quais nada há que controlar, nem sequer aquele pequeno lago que a criança formou na praia, para retirar a areia molhada para represar o seu pequeno lago que dará subsídios para que o castelo fique em pé, por tempo interminável, até que a sua brincadeira acabe e alguém diga que nem toda a água do universo caberia alí naquele fosso.

Quero ser empurrado pela brisa da essência humana que é o pensamento, e com ele passar por cada uma das frestas da passagem que se estende entre a minha razão de visão e o meu norte de interpretação de algo que vejo a ser nada mais do que um caminhão longo em excesso, com uma de suas rodas traseiras mais próxima de minha percepção, explodindo em uma poça de água que formou-se em outros tempos, por outros motivos, e a minha vontade de ver a cabine, lá na frente, onde meus olhos apertados para focar o exato local, apontam para uma visão de que alguém está com o braço parcialmente pendurado para o lado de fora, olhando para frente, pois neste caminhão não existe retrovisor, e assim por causa disso, me coloco olhando para frente, baseando-me nos momentos lancinantes mas irrisórios pelos quais ora passei e aqui escrevi, e todos os demais pontos pelos quais já passei, e neste ato de minha condição de ser vivo, olho a plataforma que se declina, pois a estrada que vejo a frente, é linda e vou persegui-la, enquanto existir a luz que vejo mais a frente ainda do motorista, do qual ninguém sabe ainda dizer o nome, mas que trafega nesta passagem existente em mim.