2010-08-29

como se lê

A silenciosa força das flores
Emana de suas cores
Que são a sua voz
Os seus anúncios
O seu mosaico de intenções
E digressões
Vitais em seus prenúncios
Sua beleza
Sua inestimável fineza
Está
Em seu corpo a corpo com o desejo
Sua façanha é
Inspirar o beijo
Do errante visitante que as fecunda
Silentes
Apelam
Dando gritos de perfume


Hatherly, Ana



no rabisco do banco espelhado pequena face, de receitas, recados e colheitas, o desalinho das palavras por dar voz às coisas silenciosas a despeito da margem recortada, numa tarde chuvosa em que a folhagem baila, respira-se o tempo: o globo intenso. à beira-mar, uma caminhada íntima, humilde, lírica e secreta, publica de gotas inimagináveis uma flor que bate no teclar ainda ontem era primavera, a lembrar do palácio habitável com límpidas palavras, e lábios ardentes antes da fala dos ramos floridos. ao azul convidativo, o sol dos dias com núncio de parto, o caule das açucenas alucina a cor de um cântico divino, no nu símbolo de si mesmo renunciado pelo construtor do artear invocativo que se estende, alarga a tenda em brancas flores, e se traz o dia aberto em olhar fixo em jardinar. na benignidade do mar, embebe-se por encanto ao relógio que se quebra e tenta-se ler outra vez as páginas cantantes na madrugada a sussurrar pensamento íntimo, a qual labirinto não é voz a assombrar narrativas. pelo sabor o amplexo das estrelas se resulta dos encontros da paisagem quando não se olha supérfluo, e as árvores se iluminam por dentro seda pura, com fotografia ao longo dos séculos da gaiola aberta, grafa-se respirar o vermelho do sol e o branco dos muros que se toca: da anatomia da espera.


. canteiro pessoal

6 comentários:

Jorge Pimenta disse...

priscila,
é incrível como a anatomia da espera tenha funcionado como mote para um texto em que as palavras são apenas pretextos e pré.textos daquilo que de mais valioso encerram: a imagem (mesmo que mental). o teu texto é, ele próprio, a espera, com e sem matéria, com e sem anatomia.
um beijo com admiração infinda!

Canteiro Pessoal disse...

Jorge, viagens de luz e sombra possui na arte do jardinar um aroma a fazer pele jorrar óleo puro; infindas espécies de flores belas, com pétalas derramadas ao chão a resguardo íntimo toque na levíssima embriaguez da conjugação e no adentro as camadas profundas de um solo.

Lindo por fora e inteligente por dentro.

Abraços.

Jorge Pimenta disse...

priscila,
talvez por viveres num "canteiro pessoal" tenhas uma apetência especial para transformar todas as palavras nas mais belas e exóticas flores que os olhos possam um dia tocar. as palavras que me dispensas neste cais viscoso e onde a mais fina flor é apenas o lenço aberto acenando à partida das naves continuam a sorrir-me no rosto. grato por tudo.
um beijinho!

Sr do Vale disse...

Há a fluidez em misturas de cores e sensações.
Há a lucidez apesar dos lapços de memória.
Há a confluências das coisas em harmonia ao momento.
Há.

Zélia Guardiano disse...

Lindíssimos versos!
Adorei !
Encantou-me todo o espaço: virei sempre...
Abraço

Canteiro Pessoal disse...

Sr do Vale,

'Há' palavra de encaixe perfeita.

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Zélia, que doçura, e estarei sempre a tua espera ave rara.