2010-09-03

Útero

onde está ? como se desfez ? ou não desfez mas se alterou e resfriou e absorveu apenas a fracção de mim onde estava a ternura triste, o conforto humilde, a compaixão. Não haverá então uma palavra que perdure e me exprima todo para a vida inteira ?


Ferreira, Vergílio


A mente esmigalha-se e se dissolve na água, tudo a fundir. Dança desfeita diante minutar de dedos no tecido desconjuntado da tinta, do esquecido caminho das cores, e não borra a pele em busca como antes vomitava aos quatro cantos. Do acreditar impossível na extração da linha viável do possível possibilitar molhado aos lábios. O coração bate, estremece, e com os açoites em eixo, empurrando na base do cérebro a visita do especial em declínio. Tal que outrora deslizava sobre a pista em sonhos e veia veloz descrita em cheiro metamorfal. Da capturação de lua mais bela do que nunca, na docilidade, numa fração de segundo, levado pensamento cativo no gosto de vôo. O laboratório de fotografia do aceitável à fotógrafa, esmiúça nas piscadas o nulo gostar de flores, pétalas a regar chão. Com corte as braçadas do vento, voejar, e no concentrar robótico, não sentir nada. Ser-se obcecada pela estrutura e pela forma correta negrulosa. Com isso, as lembranças, memórias adocicadas, movidas no caminho da coagulação, e dentro esmagadas às asas no presente. E o que se proclamava devoção ao rasgo de véu, ritual profético, como ardente e desejável, usurpado de não fazer-te o que lia nos olhos doces da melodia da voz. As madeixas tristes e frias, procela em cenas subliminares o que há de buracos no peito devido às palavras, atitudes a ferir com presas, e se marca esterilidade, e o seio com núncio empedrar, por sabido que após negros enleios, dorme-se profunda e solitária.


. canteiro pessoal

4 comentários:

Jorge Pimenta disse...

ufa, priscila,
neste carrossel onde as palavras são apenas as rodas dentadas de engrenagens sensitivas que nos conduzem à locomotiva da morte, mas, sobretudo, aos trilhos da vida, fico com a cabeça coberta de tons que apenas existem do lado de dentro da realidade, como aquele lençol que toca a pele dos amantes mas nunca os conheceu do lado de fora. pensei em dormir profunda e solitariamente, mas não; recuso-me a fazê-lo, pois a poesia, que jamais dorme, não tem tempo a perder; reclama-se a urgência de escrever, de ler, mas, sobretudo, de amar.

beijinho com profunda admiração!

Canteiro Pessoal disse...

Jorge, entre a multidão em múltiplas faces dos acontecimentos dos meses, árvores com almas, o carrossel desce à cidade sombria do dentro desse ser-se que veste e ampara o sono profundo. As emoções estacionadas, sem a púrpura dos dias, perante a surpresa do festejo do trilho da vida, ecoam pelas avenidas traçadas as curvas, em fases irrecusáveis pelo fuga adentrada nos lábios para ilha que transborda risos de abrigo que embriaga, dança-se violino, atirar-nos para o lugar das mãos entrelaçadas. O enredo clamante, gota a gota a vida vai encharcando os ossos, da reclamação, 'a urgência de escrever, de ler, mas, sobretudo, de amar': de ser-se na leveza dos dias claros e na descoberta: o mistério dos dias tristes, com revelar-se intenso e maduro nas canções pastorais que saciam o coração dos apaixonados
e já não indaga-se a lacuna, os porquês.

Abraços que se pintam e re-pintam.

Jorge Pimenta disse...

priscilla,
é incrível como os a.braços desse lado do atlântico ecoam nos braços de cá, e vice-versa, num corropio de sons, tons, e formas que se fundem ora em murmúrios imperceptíveis, ora em gritos e clamores. e as palavras saltitantes, travessas, indomáveis, rasgam o écran e incrustam-se na pele, umas vezes segurando o salto nos abismos, outras empurrando para o delírio em azul, num e noutro caso, anunciando a derradeira epifania: "o mistério dos dias tristes, revela-se intenso e maduro nas canções pastorais que saciam o coração dos apaixonados".
deitemos fora os porquês... rasguemos as tabuletas com os quantos... afundem-se as proas dos comos... viva-se, simplesmente. o demais é acessório.
um beijinho!

Canteiro Pessoal disse...

Jorge, rasgo em pele pelos oceanos no oceanar: casam-se, e em suas ondas incrivelmente as mensagens declamam, mesmo pincelando dias longos. A imagem abri-se nos aposentos, onde o coração submete-se a erosão, e o espelho de um céu nulo monótono protagoniza, ou deixa-se que a tarde prolongue no contente festejar dos horizontes aspirantes. O perfil da montanha, direcionado aos quatro cantos do globo, e a linha azul do mar, como molduras cujo centro se esvazia de si [egoismo], quando ao dizer o nome do viver simplesmente, na realidade dos sons, das tonalidades e formas intraduzíveis, arte de entrar nos meandros íntimos, que percorrem a luz de um rosto, na qual as prosas são feitas do silêncio incalculável, para que se possa renascer, e nas sombras se abstrai, sorve a memória das promessas.

Abraços ave rara.