2010-09-03

Nascente


no limiar do silêncio,
frente paleta de cheiros bem fortes
a nascente deslaça.
as paredes repintadas renascer.
recapitular-se
repaginar-se
repórter do coração fronte essencial
a transportar derreter das horas
nas famosas respostas tão almejadas.
o frio não acordar mais,
não sensação de estar morto.
quarto gosto de caráter maduro,
beber em gosto.


. canteiro pessoal
. imagem: Sr do Vale

5 comentários:

Zélia Guardiano disse...

Lindos versos, Priscila!
Adorei!
Grande abraço!

Jorge Pimenta disse...

da minha janela: o oceano, num pêndulo vertical que entontece a vertigem. recuso debruçar-me sobre as suas línguas de alfazema que convidam ao salto sem pára-quedas, num sibilado de açúcar e mel.
há dois dias, bailei no parapeito como o equilibrista que calca o mundo sob os pés, indiferente ao medo, mas atento ao aplauso. daqui a dois dias, sentar-me-ei num cadeirão cor de chá enquanto os dias me acolhem na sua contagem como filho primogénito e de todos o mais legítimo.
que herança me resta? a da fibra que faz ninho nos ossos e empresta aos músculos a mais louca das primaveras, aquela onde os pássaros assobiam o teu nome enquanto tecem os aromas de novos despertares.
a janela permanecerá aberta enquanto souber escutá-los.
um beijinho por detrás do vidro, proscilla!

Canteiro Pessoal disse...

Zélia, obrigada e abraço bem apertadinho.

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Jorge, as palavras vomitadas multiplicam-se em aprendizagem intraduzível, e me perco em ganho profundo. diante a face das linhas apresentadas, os tons no meu palco elevam-se numa euforia de prenúncio: perpétua. minhas cordais vocais prostram-se ante sua voz refinada, maestral.

Agradeço-te pelo ensinar do ato nobre e rendido as palavras, estas que lá no fundo, profundo e distante, nos faz alcançar o cume em descoberta da redescoberta, assim como se arranca a primeira camada da pele [dor em amor], ao som da harpa e do violino. captura de um olhar mais humano e sensível.

Canteiro Pessoal disse...

Jorge, hoje pela manhã em viagem pelo universo das letras, e na re-leitura do comentário, o seu pronunciar 'da minha janela', remeteu-me num escrito construído a quatro mãos. Partilho 'Ondas Azuis'.

Da janela do quarto, claramente, percebe-se a distância descomunal que separa do universo. Da execução grandes composições em flauta mágica, como léguas, quilômetros e milhas incontáveis, a partir de uma realidade do dizer senão isso numa tempestade musical. O desenrolar-se por aí ao contorno do relevo dessa esfera de terra e água onde não sabida por qual motivo põe a muito ano atrás, quando não se senti bem disposto, aberto coração. Seja em carruagem quando se viaja, seja de noite quando se repousa, acodem-se as ideias aos jorros, o gosto que à boca sacia sede da boca, aprazível em pluma e vôo. Há um crer incomum em dança, se isto fosse bom e aceitável à pele, a primeira reação ao ver o mundo com os próprios olhos não teria sido o choro convulso, e entristecido com as linhas apresentadas, nos dias em questão, também, o mundo. Da janela do quarto, encontra-se o processo criativo, olha pra cima o firmamento, as estrelas, a via láctea e todas as outras, inclusive a mais longínqua das galáxias, a servir de testemunho do imenso vazio que é coexistir sem vinho, à medida que aproximação do espaço sideral causa como e donde não se sabe. As lacunas transportam-se em grito, e prostrar, diante fonte a jorrar sons de raras combinações harmônicas, e o mal distancia do globo terrestre, do pensamento a descobrir só e isolado, tal e qual as estrelas para reparo. Dias, da janela do quarto, observar-se a lua, apanha em flagrante, a boca aberta e os olhos mortos, há uma visão do quão inútil e também, da inutilidade com intelectofútil dos seres racionais, a chorar e a lua também chora o que se leiloa. Da janela do quarto a percepção adentra no mar e nele que já servido de veículo para que um mundo encontrasse outro, escravos fossem transportados e navios naufragados a revelar mudez cantada de histórias. De 22 composições sacras, 21 sinfonias, 6 quartetos, 18 sonatas para violino e cravo, além de serenatas, divertimentos, danças e uma infinidade de peças menores na crença que houve por decorrência disso tudo inúmeras situações de pranto e ranger de dentes, renascer enorme de vida, o mar está vivo, o mar vive. O mar sofre e se sofre ao visualizar que sofre o mar. Da janela do quarto, a retina se atém na rebobinação, pele transcorre ante uma linha do rasgar, na qual camadas mesmo num lindo pôr-do-sol passam por problemas e mais alguns outros diferentes, prescrita nos neurônios uma chamada, e a mente trilha complexa na teia da inquietude. O currículo que faz longear à ponte do palco até cabana em que o azul corresponde uma teoria desprovida do tecnicismo. Da janela do quarto, o nu causa arrepio, vergonha perante faces com a síndrome do comum, com compreensão nula dos detalhes que fogem dos parâmetros sociais. A trazer colagem de estrelas que não cintilam às primeiras horas de uma noite clara, uma fragrância robotizada, a saquear o grafar no solo polvilhante redescoberta em toque de boca molhada, sedenta nos acordes listados ao espelhado de um amplexo cariciado num botão de rosa, enleado de encantos, presos no amor dos céus. A terna guarida, de bilhetes e vários meios para lembrar-se de relembrar, o ouça-se bem no entrelinhado. No cobrir o frio da estação, no junho do carinho ao belo balão azul. Da janela do quarto, a imaginação tateia o fio que descreve história de busca, do esquecido da editora abortiva pelos sonhos vomitados, desenhados num sol amarelo, e aquarela capitula-se sobre papel preto, o reflexo do esplendor. Os quadros tatuados na ponta dos dedos, sobre o valor da tinta.


Léo Santos e Priscila Cáliga

Vou ao término com:

Se as estrelas são tantas, só mesmo o amor.

[Veloso, Caetano]

Abraços

Jorge Pimenta disse...

priscila,
a janela do quarto é o mundo mais íntimo que, depois do ventre, alguma vez conquistámos. dali se olha para fora, mas, sobretudo, se vê o lado de dentro, sem se ser visto. e entre o exterior e o interior, o eu e os outros, a janela e o mundo, o que sobra? nada. está tudo ali. e nessa salada de seres e não seres, o eu percebe a centralidade do universo, mesmo que não tenha fé nos deuses e nos seus semelhantes. e ele cumpre um papel, não tão secundário quanto a lâmina que lhe lambe o rosto tantas vezes prenuncia; não tão marginal quanto as portas que se lhe fecham regurgitam; não tão ínfimo quanto a máquina do universo parece querer destinar-lhe, no jogo das areias cósmicas anónimas. do ventre, muito mais que as entranhas, ergue-se a coragem, o olhar nítido e o pulso forte. e, pela primeira vez, é à janela, entre mundos, que sente a tinta do bilhete de identidade inscrito no peito e não no papel.
um beijinho, poeta de asa branca!