2010-09-14

(Re)vestir-se.


Os arranjos tão convidativos que não se sai do habitat da conjugação plena, na qual a sola do sapato gruda no sangue exposto ao chão, e marca as vestes em carícias com reconto das minúcias do morango. Da chuva não se foge e a ponta do lápis observação operante, pois as pálpebras com assumido pincel num trajeto que descamisa o habitual por caminho da palma de mãos na declamação do dois em um: uno. O perfumar do mar em enlevo e que levanta o morto nas vibrantes cores. Do olhar penetrante da face beijada aos livros que se abrem e discorre profecias, intensamente absorvido a linha entrelinhada, e nortea-se o que se está na compreensão infinda dos acordes do violino apregoado no romper da aurora.


Priscila Cáliga

Eu conto que é bonita a maneira como o vidro da janela deixa a manhã entrar em meu quarto. Seguro o sol com meus olhos e faço silêncio para ouvir os afetos delicados despertando. O agosto vai passando com sua violência hostil e tudo o que me importa é a poesia. O que tem me atraído é a vontade bizarra de passar o dia inteiro tomando sorvetes e escrevendo todas as paixões. Por nada e qualquer coisa. Eu me observo e gosto de brincar com as cores no espelho. Encho o corredor da casa com meus bom dias, esqueço alguns sonhos na mesa e abro as portas sorrindo, sempre com um fiapo de amor entre os dentes. Pelas ruas, entre passos apressados, um vento frio faz estremecer algumas certezas. Esqueço-as. Espalham-se todas pelo bosque onde passo sem nem notar. Já não amo ninguém. A escrita permanece atravessada. Minha língua guarda promessas e alguns planos. Guarda palavras ensaiadas para serem entregues a alguém que nem desconfia. Guarda um potinho de ilusões que espalham um gosto de estrela no céu da boca. É o que me faz sorrir. Ontem falei de saudades e um cisco nos olhos foi a desculpa para a neblina. Todo o brilho coube no vermelho das pedrinhas desses brincos, flores pequenas que fazem meu rosto querer submergir em meio a um par de olhos escuros sobre os quais escreveria por mera distração. Ou atenção demasiada. Um quintal, um jardim. Par de olhos esses que às vezes se escondem e brincam com o castanho que guardo, pedindo-lhe para que os encontre.Não me explico, optei por sentir. É como quando as duas mãozinhas delicadas da minha outra menina, pequena, desenham minha face: tudo fica doce. E também diria ainda das cartas que me esperam na cama, uma vez por mês, pintadas de carinhos que saltam tão logo os envelopes são abertos. Minha letra diminuta demora, emudece, e depois responde, apertada, que é para amarrar as coisas mais lindas e remetê-las todas de um jeito muito leve. Quando me perguntam o porquê das tardes de repente ficarem tão amarelas, eu finjo nem saber, mas desconfio. Sinto logo as amoras estalando em meus dentes, vejo o céu descabelando as nuvens e a felicidade me desarrumando inteira. Efeitos que componho enquanto tento equalizar o silêncio, carícia mais suave. Em meio a uma imensidão de desejos embaralhados, separo uma história. A da poesia que derramou-se em meu vestido quando o amor adormeceu em meus ombros. Eu venho por um motivo. Esse, que me alarga os lábios enquanto dá voltinhas alegres em minha boca.

Viana, Jaya Magalhães

3 comentários:

Rívia Petermann disse...

Balavras tão belas e discorrer tão leve que é impossível fazer algo mais que não observar e admirar a fluência das palavras...

Beijos!

A.S. disse...

Priscila,

Os teus textos
são talhados com o fogo
tal como as plantas florescem
com o calor do sol.
Mas há palavras como rios
que desaguam na nascente!
Pássaros que voam docilmente
sob o perfil das silabas!
Eu, limito-me a guardar um suspiro
do escultor de tão deliciosas palavras...


BjO´ss
AL

Canteiro Pessoal disse...

Rívia, verdade!

Ajoelhar ao luar e cantar, e no suspiro embrenhar no oceano.

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A.S ou AL, no oceano azul profundo, as canções das ondas como doces da infância ao horizonte do futurar.


Abraço aves raras