2010-11-03

o próprio jardim

[...] como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio.
Távola, Artur da


na úmida e infinda madrugada,
o poema cego incita as cascatas de água
escorrer lugar de linho
na resposta do espetáculo da vida
fronte sorrir dos lírios:
o ósculo azul.
o pintar do barco a vela
e velas na escrita do branco em navegação,
pra vê o broto com pequenas frações.
os traços pela devoção.
dos contornos na face da borda,
em renovável viver comungado.
o inteiro do estar presenciado,
a fazer entrega total
como se furtasse à sonolenta dor
por carícias das mãos
a dizer, e fazer nascimento dos versos
o que livremente se condena à liberdade.

Canteiro Pessoal
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são uivos de fel os que escorrem da cegueira dos homens. sobre o estandarte da hipocrisia, acenam revoluções, evoluções e demais grilhões, tudo sob o aplauso frenético do escrutinador. para lá das palavras, o vazio existencial que se conforma com o circo deserto, onde aplausos são apenas gravações forjadas e os números reedições de actores de outrora. e neste reboliço performativo, onde fica o poeta? carrega a esperança no lastro que lhe rasga a pele e a arremessa para longe dos ossos. ainda assim, definhando no corpo, o poeta permanece com os lábios erguidos, numa oração sem silêncio, num ofício de anacoreta abandonado à indolência dos que julgam e dos que aceitam ser julgados... ainda assim, crê que vale a pena. eu creio...

Pimenta, Jorge

2 comentários:

Suzana Martins disse...

"o pintar do barco a vela
e velas na escrita do branco em navegação,
pra vê o broto com pequenas frações."

os seus versos são sempre maravilhosos, daqueles que mexem com todos os sentidos!

Beijos querida!!

Lunna Guedes disse...

Uma descoberta que fez minha tarde ter gosto de mar, mesmo estando eu num lugar de asfalto e horizontes falsos. Adorei. Bacio