2011-02-26

o interior da erva

em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

Horta, Maria Teresa


Final de tarde da subida às nuvens sobre os oceanos musicados pelas canções que voam para o sul; o repousar meio as viagens de luz e sombras nas escadarias que dão mãos ao feminino profundo das colheitas - pele aveludada ? E dos campos amplos, tecidos virgens em meiguice estelar, em que as aves vão atrás dos frutos deixados à geografia. Das folhas entreabertas os rastros dos insetos que reabrem fronteiras por gozar o alinhado da relva silenciosa, e ouve-se o canto das águas; as asas que de notas comuns ao rápido se gazela incomum querer de borboletear. Do solo agradecido, mas jamais insatisfeito os dedos que se colam na camisa, o grito do nulo parar olhar à face. O arco-íris que entre vertigens de fogo magoar, o mar grafar dois lábios, o que se há rota e cor de leves toques e sabor achocolatado. E de amplexos o estar dos braços da imagem exalados de brisas, salivados doce aroma e de segredos reinscritos o nome. Aceso ao olfato que de cidades crepusculares, imenso, intocado e inteiro, estranheza e solidão de exterior o que acontece; traduzir desejável às noites claras às partes, do fundo em fundo o arder das marés que almoça e janta - delira. O crescimento permanente, e da linguagem o leite questão de vida ou morte, opta o descruzar dos membros inferiores com locomotivas em arte de bailarinas que deslizam. E corpos em fornalhas, com próteses, tumores e doenças num chão de espelho aos tons de vermelho vivo beba o chá das flores pensamentos de versos. O instrumento e a dança, com calar das facas e se dorme as luzes que sabem ver o fechar dos olhos, e o globo aborta a prática dos pulsos às horas longas com o núncio do derradeiro degrau nas mãos jamais abatidas do artista diário. E dos joelhos dobrados a sinfonia rasgada, a miragem presente em redor da mesa, subitamente, do lado de dentro tão nu encoberta de imaginários ante um quadro nunca esboçado com piano, a neve branca, fria e severa no choroso vestido, levantar o filho morto ao prelúdio dos fios partidos a serenata reconjuntar um céu maior – dócil nos terremotos.

. canteiro pessoal

Pimenta, Jorge

7 comentários:

Jorge Pimenta disse...

querida amiga,
é, para mim, um privilégio poder cruzar as letras contigo. e como assim me sinto a crescer.
um beijo com admiração!

Jorge Pimenta disse...

priscila,
o céu maior que se abre diante de olhares indecifrados é quase sempre invisível [quando não mesmo indizível]. na miragem colectiva, delírios de fogo e êxtase pluviosa descem ao peito reescrevendo a história individual, impura, artificial, apócrifa. mas, na mentira da alucinação se faz a verdade, aquela que tem mãos longas e dedos frios com a elasticidade da borracha. por mais trincheiras que se abram entre o medo e a epifania, por mais muros que se ergam entre o homem e o deus, a mentira deita-se no solo, derrete, torna-se líquida e viscosa, deambulando pelas frestas que, por mais calafetado que o corpo esteja, sempre acaba por pisar. e toca-lhe, e lambe-o, e entra em si num desejo lascivo que o consome e corrompe.oh, pequenez de um sonho que foi maior do que a noite mas menor do que o homem.
e os deuses enlouquecem.
e os homens perdem as copas das árvores.
e os pássaros perdem as asas.
e as mulheres mortas enrijecem os músculos [coitadas, também elas se perderam neste novelo de inquietações].
já nem eu sei com que letras se escreve a poesia...
um beijo!

Suzana Martins disse...

O instrumento, a dança, o horizonte em suas vertigens grafam palavras que ensinam o mar a escrever...

Perfeito!!!^^

Beijos Pri

O Profeta disse...

Ao meu silêncio chegou um riso
O meu desejo mora no limite da razão
Roubando os segredos do corpo
Lembro as tuas mãos como uma torrente de emoção

Lembro que enchi o vazio da tua alma
Enjauladas as asas morrem de dor
A beleza é um momento eterno
É o espelho de água onde se contempla o amor


Doce beijo

Paulo disse...

Para que, paradoxos, paratodos, para-quedas, para-raios, pára.
Interpretações espontânes não levam as conclusão necessárias e os versos me confundem e não me mostram o caminho que persigo.Tsunamis atropelam letras e palavras e os versos justapõe-se e deles retiro o néctar para a sobrevivência.

Desbúruru disse...

Vim


Relí
Exaurí
Percebí

Comoví

Menina no Sotão disse...

HOje não tenho mais nada em mim que este silêncio que se origina em suas palavras. Quero ser um pássaro e voar por cima de todas as coisas e descobri no final do dia um galho. bacio