2011-03-20

neuropoemoterapia

Sem a máscara somos nós,

e sendo nós não nos conhecemos

como nos conhecem.

[Narciso, Adriano]




Na beira mar o néctar das emoções com a persistência da memória, investiga a adaga por cogitar arranhar a cumplicidade, das vastas vezes que observa os espinhos. Os lírios preguiçosos no bater das ondas, aconchegados aos cheiros da cama fofa, sorrir as lágrimas que queima a pele; amável terra sendo mexido, como remexer perfume no relógio. Aos céus, o que real se uiva para a simetria, sintonizar-se, mesmo face a face às notas quebradas, que dores espalham-se na travessia do invernal. Aves que pousam na linha do tudo e nada, do pálido como espantalhos vazios à imaginação de novos raios de sol. Em silêncio o matinal branco de homens na loucura, e, na ironia, encolerizar é prato em combustão com pés que tropeçam. O belo entardecer à espera do lampião triste, vival na mata densa, livros em ocas lêem os amargos e letras como conchas nas estruturas, as gaivotas sobrevoam o dourado; a morte açucarada que modela os dedos atiçados pelo vento, como copas, opinião ou valor, cada toque o sentimento aflora ante os pedaços dos finos à cabos de aço. A folhagem cadente, tão ornamentado traçado das mãos que se envernizada e de eterno promissor desenhos clássicos e rústicos, aponta-se os faróis imperceptíveis e chove no coração o que se entoa; os dias à porta, e de entrar o negro e obscuro do profundo jardim, ressurgir o leão familiar que ruge na vida lenta do corpo absorto, e sob as palmeiras, a primeira guitarra na cidade transparente - pétalas de uma flor em fogo.

Canteiro Pessoal

7 comentários:

Suzana Martins disse...

Uma folhagem cadente, num jardim de estrelas, anuncia o outono na linha tênue do horizonte. A cidade, sem máscaras, inventa um mar de saudade nas notas da guitarra de uma corda só.

Resta apenas os raios renovados de um pôr-do-sol e o seu anoitecer...

Pri, vc me encanta sempre com as suas lindas e maravilhosas palavras!!!

Beijos

O Espelho de Eva disse...

Lânguido e leve.

Tiago disse...

Lindo. Senti a petálas em fogo escorrendo.

T.

Valéria Sorohan disse...

Belo pensamento explicitado na poesia, moça! Mas,o que a gente faz com a "realidade" tão "obrigatória"?

BeijooO* grande.

Paulo disse...

Sorvo o néctar instigante destes devaneios teus que misturam fórmulas concretas a metáforas entrelinhadas e que explicitam o sentir espontâneo de alguém que busca a paz e a vida e quer compartilhar. Mãos, dedos, cinco sentidos que aumentam para seis sete...
É de se ler cantando e ouvindo a música que se instala em nossa mente.

Abraço, Pri

Jorge Pimenta disse...

querida priscila,
há céus que passaram a ser objectos poéticos desfilando em galerias de imagens que afogam as tempestades de carne em que o ser humano se entrincheira. é-lhe difícil combater o líquido verde e viscoso que escorre da sua língua, ou não fosse a sua voz o maior dos venenos e o mais pequeno dos ventos. a si, pequeno objecto da criação, resta-lhe trepar ao mastro e divisar terra, pedaços de chão que o sustentem, porque os céus são, ainda hoje, única quimera em que deixou, já, de crer. o teatro fica vazio com a morte do actor. who cares?
beijos, amiga!

A.S. disse...

Encantado com a qualidade desta prosa poética!... verdadeira melodia!!!


Beijos meus,
AL