2011-07-30

nimbypolis

imagem: Abo Fahod

A tripulação era completamente nova, porque a anterior tinha sido demitida por inaptidão e substituída por um timoneiro destemido mais onze robustos e competentes remadores. Remavam no meio do nevoeiro e ouviam apenas as gaivotas e a marulhada do mar, para além dos gritos do chefe e da sua própria respiração. A água já lhes dava pelos joelhos e continuava a subir.

De vez em quando, tapavam os buracos do costado com umas placas de chumbo que pediam emprestadas e retiravam a água com baldes. Nessas alturas, ficavam convencidos que chegariam a bom porto ou, pelo menos, que atingiriam um baixio de onde pudessem arrastar o seu barco para a praia.

Apesar de todos os esforços, a situação ia piorando implacavelmente. Analisaram o problema com rigor e, espantados, descobriram que os rombos no costado eram feitos pelos mergulhadores que lhes traziam as placas de chumbo e que, a cada entrega, lhes impunham ritmos de remadas cada vez mais intensos. Como o peso a bordo ia sendo maior, também descobriram que a imersão do barco ia aumentando, entrando ainda mais água.

Passado muito tempo, o nevoeiro dissipou-se e viram outros barcos com o mesmo problema. Com os mesmos mergulhadores a entregar-lhes placas de chumbo iguais e a fazer idênticos furos no costado.

Mais ao largo, havia barcos maiores que navegavam sem qualquer dificuldade e aos quais pediram ajuda. Responderam o que já haviam dito à tripulação anterior: que muitas das placas de chumbo eram cedidas por eles próprios e que, se queriam salvar a embarcação, teriam de remar ainda mais depressa e continuar a pedir placas de chumbo emprestadas, porque a alternativa era secar o mar.

Barcelli, Nilson

3 comentários:

Suzana Martins disse...

Tão belo que nem sei o que dizer...

Beijos

Canteiro Pessoal disse...

su, concordo!

p.s.: escrito oceânico!

abraços

Nilson Barcelli disse...

Nunca te agradeci esta tua amabilidade.
Deve ter sido por causa da turbulência das minjhas férias...
Obrigado, querida Priscila.
Beijos.