2011-08-23

[na pele salgada das ondas]

Chorar é diminuir a profundidade da dor.

Shakespeare, William





Numa tarde de música a face sentada na cama, como um peixe na rede exausto, com afinco analisa o grito dos oceanos arquivado e visível na retina. Do ventre à despedida da beleza do sol em ópera sobre o aborto que arde o trilho. O perfume perdido a transpirar na pele re/conta os fios, e o papel assaz no canto do vento com a nudez dos fantasmas, encerra-se as metáforas; do ideal poema de casa para o real esqueleto de palavras mortas: dor eminente nos poros. A cratera nas entranhas que ilustra intimidade estremecida, e se expressa no campo pobre de verde, o amplexo do texto da família com injeções persistentes as boas novas, mas, que, o traçado das flechadas sob a roupa, não causa um mínino de amarelo. Paredes a formular loucuras e curvas, dão aos espelhos vestido de sangue na porta das manhãs com asas feridas, gestos que não preenchem. Dos dedos, a agitação do ventre, e linhado o inverno interno da autora que reside na caverna. Nas batidas diárias ao conjunto da obra prima, descoberto que há enumeras feridas; embarcações naufragadas – veneno costurado aos lábios pequenos e sem vivacidade. O rosto interior empedrado e enjaulado, sem candura, que desfaz o pincel das águas cristalinas e não se têm desejos por abraçar a tela. A cicatriz do tempo que treme as linhas penetrantes, e no teor da vida e morte, o enredo na distância de um ósculo, que edita a cada lua, quanto se está à deriva na luta nua de canções fundamentadas; as sílabas espinhadas e autodestrutivas, que despontam nas noites longas, com rumor da erva daninha e respirar fatigado junto às ondas.

Canteiro Pessoal

Título: [de O Canto do Vento nos Ciprestes, Gótica, 2001]

7 comentários:

Augusto Dias disse...

Muito forte!!!

Leitura de duas pontas, sem pausas início até o fim, prende, intenso...

Muito bom!


Um abraço!!!

Amanda Lemos disse...

Muito interessante o Blog,
Gostei muito do que vi por aqui.
E te convido para conhecer meu espaço, caso queira dar uma olhada, seguir..;

http://www.bolgdoano.blogspot.com/

Muito Obrigada, desde já.

Canteiro Pessoal disse...

Augusto, agradecida pela visita. Volte sempre, e estarei logo, logo pousando no seu cantinho.

Amanda, já estive tempos atrás em seu blog, apenas não recordo se comentei por lá, mas, voltarei!

Abraços preciosos!

Jaya Magalhães disse...

Suas letras, em prosa, são imensamente carregadas de poesia. Um poesia (in)tensa, conexa. As palavras se enfileiram numa ordem na qual deviam ter sempre existido.

É maravilhoso, Priscila!

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É sério que o blog acaba ali? Sei da necessidade de encerrar ciclos, mas, ainda assim lamento. Uma pena perdê-la, em letras.

Beijo grande e obrigada sempre.

Canteiro Pessoal disse...

Jaya, infelizmente, não enxergo mais poesia no que escrevo, um abismo entre mim e as letras [a poesia pura], perda do caminho do lírico, e na tentativa de resgate, me limitarei ao caderno de anotações [só pra mim, como fazia no início de tudo].

Na íntegra, minha querida, encontro-me enfadada de entradas com saídas repentinas no universo virtual, na qual confirma conceitos [pensamentos que me rondavam].

Já, não há gosto, prazer por escrever no blog, ou qualquer outro meio ligado ao virtual, causa-me tamanha indigestão. Capturo gritantemente, a distância do que pensara ter conquistado; caio na real de tudo ter sido uma miragem - plena cegueira. E na constatação, sofri perdas incalculáveis [construções ao qual base fora inexistente, como vento intitulo]; relacões [grande massa] na inconstância e falácias.

De qualquer forma, agradeço ave rara pelas palavras acima. Suas palavras são sempre respeitosas e acolhedoras para com o próximo. E peço-te que não tome pra si o que acabo de escrever. Afinal de contas, tenho grande consideração por seu espaço [pessoa] através de palavras vivas e bastante expressivas, tais que em muitos momentos cairam como luva nos meus dias.

Abraços!

Danilo Castro disse...

Pri, mas sabe que eu nem fico tão triste assim. Na verdade é bom ouvir outros pontos de vistas, críticas. Acho que o nosso espaço também deve servir pra fomentar isso, fica mais interessante, instigante. O problema é quando a crítica soa vazia. Obrigado pelas palavras de conforto. =]. Pq não consigo comentar na sua última postagem?

Canteiro Pessoal disse...

Sabes querido Danilo, ouvir outros pontos de vista [crítica] de forma ética e responsável - construtiva pouco se absorve no global, tão pregado como promissor, deixando-me ficar por horas a pensar que a prevalência da frieza e distância do que é ser 'humano' é bem mais crescente do que o aperfeiçoamento do cárater; a palavra respeito e amor, que infelizmente encontram-se em morada no esgoto. E uma das indignações eminentes na pele, no quanto o vazio [destrutivo], além de afetar o protagonista, o que se expôs, é uma praga que cresce absurdamente, e a epidemia afeta as mentes [a massa] com ações e reações no que diz respeito ao psíquico, social e afetivo - dirigir-se ao próximo.

Obs.: Desativei o comentário na postagem que mencionaste.

Abraços!