2011-09-26

o embalo apagado no trem

A história ficaria melhor. Mas é que não posso mentir para agradar vocês. E além do mais acho justo que a vida... (?)

Lispector, Clarice


Apesar de Georgiana encontrar-se entranhada no enredo de livros tão antigos e afáveis, que contém uma sabedoria e formosura rara, soar intelectual, espiritual e moral, sua atenção e concentração residiam ao falecimento do quarto. E que de tão silencioso, pálido e negro trazia ao seu leito angústia. Dito em telas letradas o viver passivo e doentio, com que conduzia a face ao envelhecimento, e a apresentar novo formato que a afastava da interioridade de um botão.

Da musicalidade do vento um descaso tamanho, sem estar mais apaixonada no balanço das árvores. Desde o que o além do espelho e paredes transmitiam a perca do sentido e compreensão ao entrelinhado. Com o embalo da mãe abolido de sua crença, na convicção que o inverno do ato em rasgos profundos, a permanência significativa dos fatos ao solo da vida que assim aceitara sem rezingar.

A história de suas folhas refletiam em seus olhos castanhos escuros e pele parda enjaulados na memória escura dos dias, ao qual a casa desabara por uma abertura que não foi sequer conferida – a veracidade das palavras que proferidas, a serem de fato, notas confiáveis, instaurado uma tristeza profunda e visível. Contudo, o que ainda lhe restava em miúdas manhãs eram lágrimas que conversavam, e seu nariz ficava ainda mais gelado e vermelho.

Um ser que emanava, vibrava dedilhadas sobre as letras dos olhos e, de uma entrega tão intensa, que a tomar um café não se sentia só. Tudo era importante, e falava no provável arco-íris e incomum alfabeto. Via-se descobridora de peles, cheiros e linhas recheadas de cicatrizes à procura das gotas carregadas de metamorfose. Sentia-se rasurada, frágil e débil nas palavras, e no não ser-se nutrientes em lábios.

O horizontal que amava, tornou-se carta fora do baralho. Sem a lua e as noites apreciadas na cabeceira da cama. Atolada nas gotas de sangue sobre o lençol. E a telar inexistência nas pétalas por ouvir canções das partilhas com tumores. Inserir-se em cada partícula da infância de tempero e colorida, já não causava gosto. Mas, desgosto pelo viver que abordava. Pois, o mundo ao seu redor pisoteou brutalmente suas asas.

Canteiro Pessoal

7 comentários:

Suzana Martins disse...

As gotas de metamorfose sempre alcançam sentimentos que abrigavam entre casulos de vida...

Ah como tenho amado a Georgiana...

Beijos Pri!!^^

Augusto Dias disse...

Ótima leitura...muito bom!!!

Obrigado por compartilhar.

Um abraço!

Jorge Pimenta disse...

querida amiga, falas de volta, de regresso, quando em momento algum te senti ausente. é assim a boa escrita; não tem de se pôr em bicos de pés para ser presente.
beijo!
p.s. sinto aqui um registo um tanto diferente, mais pontuado pelo real (que não necessariamente pela realidade), em tom narrativo, mas onde a inquietação de espírito que conduz à redenção permanece como tónica. engano-me nesta leitura (talvez redutora e simplista)?
beijinho renovado!

Secreta disse...

Palavras que nos deixam pensativos...
Palavras que nos deixam a refletir sobre o ser e o estar...
Beijito.

Thiago Ya'agob disse...

Priscila,

como é bom ler, misturado às suas letras, Clarice aqui no Jardim Secreto.

Oferto um fragmento clariceano:

Isso será coragem minha, a de abandonar sentimentos antigos já confortáveis."

...

Meu afeto: com paz, sempre.

ONG ALERTA disse...

Pensamentos que nos fazem avaliar a vida, beijo Lisette.

Nilson Barcelli disse...

E quem, de vez em quando pelo menos, não se sente com as asas pisadas e rasurado?
As tuas palavras, pelo contrário, embalam-me...
Excelente texto, como é teu hábito.
Querida amiga, tem um bom fim de semana.
Beijos.