2011-11-02

[Falar a uma só voz com um só dedo]



Nas mãos onde nos debatemos, há palavras
de sítios pejados de tartarugas de pernas para o ar
e palavras de peixe graúdo com rios de alta tensão
que escurecem saídas por descamar.
Mas há palavras de um ror de povo que há-de vir
que espalharão a luta por um porto inabalável,
com a recusa do naufrágio na razão.

No cais onde nos vemos
há a presença e a ausência das palavras,
há a infinidade das que acreditam em nós
e há as palavras quebradiças
que já não contam com nada e para nada.

No navio onde nos temos
há velas de palavras enfunadas
e há baixios de palavras onde a quilha se enloda,
há pessoas de palavra
e há mentiras embrulhadas em palavras de veludo.

À nossa volta,
há um mar de palavras nunca ditas
que os cordelinhos de mão torta decretam inaudíveis.
Quase amarrados,
vejo dentro de nós a urgência da palavra depurada
e o impulso imperioso de encontrar
a liberdade no falar a uma só voz com um só dedo.

BARCELLI, Nilson

3 comentários:

Canteiro Pessoal disse...

Quando adentrei no espaço de Barcelli e li o post que me permitiu inserção ao meu recanto, causou reflexões. Simplesmente, reafirmo que encontro-me extremamente mexida com tais palavras. Chega à dor o peito por tamanha verdade escrita. Enxergo no quanto há palavras mordaçadas dentro de mim. Percebo urgências nas minhas entranhas, apesar de não apreciar urgências, mas a linha do que é importante. Rendo-me, contudo, ao grito interno! É evidente nos ambientes onde finco os meus pés, que há palavras quebradiças, sem essência, ao qual o ar pesado prevalece. Em síntese, o caos da vida – o real sentido da vida falido.

Barcelli, obrigada pela liberação. É um presente tais palavras residirem em minha casa.

Abraço e excelentes dias; muitos mais post's com essa qualidade - nobreza.

Nilson Barcelli disse...

Querida amiga, eu é que agradeço que o meu poema resida na tua casa.
Para além de me sentir muito honrado pelas tuas palavras tão elogiosas...
Tem um bom fim de semana.
Beijos.

Jorge Pimenta disse...

querida priscila,
a relação do homem com as palavras é talvez mais brutal do que aquela que mantém consigo mesmo (ou não fossem elas, em certo sentido, o seu próprio espelho, porque a sua própria voz). porque sabem dar vida.
porque anunciam a morte. e tudo o mais é mera respiração pulmonar.
beijinho!