2012-03-20

abrindo-se para o ar

Estava alegre nesse dia, bonita também. Um pouco de febre também. Por que esse romantismo: um pouco de febre? Mas a verdade é que tenho mesmo: olhos brilhantes, essa força e essa fraqueza, batidas desordenadas.

Lispector, Clarice




O nortear de uma terra que longe da razão apalpa o mistério. E, uma a uma, perto da intuição, as palavras da boca redefinem em vocação, as inexplicações e se re/esquece os lábios pretos de um drama social. Re/dito de portas secretas, de grande intensidade e com temperatura extraída de um olhar mergulhante, o transbordar de uma escrita inclassificável que silencia o precipício. De um adormecimento renunciado, o qual a epígrafe clareia o átomo do glossário. E com tão forte sentimento, com o ser e com a linguagem, o íntimo que ora buscava compreender, invoca rico, abrangente, conflitivo, o denominador incomum que desconstrói o tom de romance descrito no mundo. Pois os amores vão por essa voz, do aparentemente banal, a chamar o original e o nascer da chuvarada que lava a terra e se personifica o imperceptível, e vital à obra. A liberdade que constitui o humano, que com folhas secas e pálidas noites, de um indiferente tecido real, e a inspiração ininterrupta a bater, entre interno e externo, vindo de um lugar implacavelmente sensível, com impressões que estabelece o sentir e, pensar, o dizer de continente, indispensável para o encontro de proximidade, mesmo com o brilho das estrelas a doer. Sempre no pingo do tempo, que esboça a nascente dos olhares e ao que se aponta: e o coração da vida? A bússola de um silêncio que se faz ouvir, uma qualidade de escuta que perder-se no fundo, re/valoriza as águas doloridas e, que o tudo é um; a maturidade. O livro das orquídeas cortadas, que não se escapa da intimidade bela como de um cavalo novo, porque se repete as estações das árvores que ultrapassa as ondas. E do simples abrir ilógico, submeter-se às raízes da terra, o mesmo impulso da maré e da gênese, que com olhar fixo, cresce e, o reflexo de interrogações cala a revolta, quando a pele sangra. E é assim: um personagem grave, solitário, contudo, feliz, porque se refina nos fins de tarde. De sombras, notas cristalinas, faiscando na alma, em vida inconfundível, os versos nas mãos, ao vale que surpreende e faz jorrar palavras sólidas.

Canteiro Pessoal

3 comentários:

Jorge Pimenta disse...

"Um pouco de febre também. Por que esse romantismo: um pouco de febre? Mas a verdade é que tenho mesmo: olhos brilhantes, essa força e essa fraqueza, batidas desordenadas."
c. lispector

" Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar..."
alberto caeiro

"Pois os amores vão por essa voz, do aparentemente banal, a chamar o original e o nascer da chuvarada que lava a terra e se personifica o imperceptível, e vital à obra"
priscila cáliga

"A metáfora do des-amor é cada tentáculo do polvo da vida que nos inibe, constrange e castra. É a morte que não mata, como aquele deus que para garantir a atenção dos seus filhos anuncia a treva e a maldição, assim inaugurando o castigo. E o homem perde-se na vontade de ser, porque para acontecer tem de cair e reerguer-se, algures entre o pecado e a redenção."
jorge pimenta

beijos!

Nilson Barcelli disse...

Ler-te é pensar, sentir, apalpar as tuas palavras, uma a uma e em grupo. Ler-te, é beijar os teus sentidos fugidios da compreensão, mas ao mesmo tempo claros na emoção. Ler-te, resumindo, é um enorme prazer.
E este teu texto é excelente, como não podia deixar de ser.
Priscila, minha querida amiga, tem um bom domingo e uma boa semana.
Abraço enorme.

Will disse...

Introspectivo, como pegadas reveladas por palavras que passam pelo caminho do coração.

Gostei.

Ótima semana para você!