2012-04-21

percepção

 Por  Will Moa



... das crianças é o reino dos céus.
Cristo, Jesus


obra de Romero Brito

O que seria viver somente lutando por comida, profissão, emprego?
A essência mais colorida da vida reside na percepção poética que ela oferece nas pequenas coisas.
É essa percepção que justifica as obras de arte: pintura, música, teatro, literatura e tantas outras expressões que brotam do íntimo das pessoas.
Muitos a captam nas pequenas coisas de forma tão sublime, como um dom:
Drummond se deu conta da sutileza de uma flor no asfalto e poetizou.
Van Gogh enchia de sensibilidade uma tela olhando uma singela noite estrelada ou um campo de trigo soprado pelo vento.
Vivaldi percebeu nas quatro estações do ano a sinergia perfeita que une homem e natureza.
Adélia prado captou a poesia da simplicidade: “Minha mãe fazia arroz, feijão roxinho, batatas, mas cantava...”
Nelson Rodrigues, tão reverenciado no teatro, percebia o inimaginável: “não existe mais metafísica no mundo do que num colchão de molas”.
A percepção poética da vida se eterniza no agora, nem no ontem e nem no amanhã.
Tal percepção tem um toque do inexplicável, pois se dá quando nossa sensação de beleza é acariciada com o sentido das coisas.
Sem essa percepção uma flor não passa de um vegetal. Mas com ela, um homem vê sua amada como uma flor.
É essa percepção que nos dá o prazer de ter os pés lambidos por ondas do mar em uma praia, o vento beijando nossos cabelos, o sol nos abraçando calorosamente.
Guimarães Rosa, que era apaixonado por travessias, narra essa percepção poética do cotidiano e a intitula 'A terceira margem do rio'.
Como chegar à terceira margem do rio?
Sinto dizer que não há mapas, somente trilhas que se mostram e se apagam conforme a leveza ou o peso do nosso coração.
Tão sutis as trilhas da percepção poética...
Como homem, já percebi algumas: uma flor espetada nos cabelos de uma linda mulher, uma menina-mulher-menina num “doce balanço a caminho do mar”, as pontas dos dedos femininos sendo lambidas após provar uma doce e suculenta fruta.
Essa percepção é aquela mesma tida por Maria Madalena ao derramar bálsamo valioso nos pés do seu mestre, tendo sido repreendida por Judas que achava que poderia ter sido vendido e dado aos pobres. Sendo repreendido pelo mestre dos mestres: “Ela fez coisa muito boa...”
Percepção poética não exige requinte, pois ela não é luxo, é necessidade, conforta, consola, alegra.
Ela visita uma humilde dona de casa num barraco de favela e faz com que ela coloque sobre a mesa um jarro e dentro dele uma flor de plástico.
Também crava no peito o espinho da verdade: o instante em que um beijo de quem se amou adquire somente o gosto de um beijo e nada mais...
Percepção poética é isto: sonhos que constroem castelos, moinhos de vento, chuva e arco-íris dentro de quem se deixa por ela pousar.

7 comentários:

Canteiro Pessoal disse...

Will, com muita satisfação e alegria que o recebo no jardim. Seu post, garanto, abrilhantou meu dia, e fez com que as flores desabrochassem.

Abraços ave rara!

Will disse...

Cáliga,
Com doce satisfação de amizade deixo aqui um sopro da minhas ideias...

Ivana disse...

Sou seguidora do blog do Will, suas crônicas são ótimas, ele escreve muito bem. Além de cronista, escreve poeticamente, ele tem uma grande percepção. Parabéns pela escolha, abraços!

Noslen ed azuos disse...

"a terceira margem do rio", esta frase é perfeita.

bjs
ns

Nilson Barcelli disse...

A percepção é mesmo essencial para as artes em geral.
Magnífico texto, gostei muito e partilho da visão nele expressa.
Querida amiga, tem um bom resto de domingo e uma boa semana.
Beijos.

Parole disse...

Vim lá do blog do Will para conhecer e gostei muito do texto.

Sem essa percepção poética as coisas são apenas coisas.


Beijos.

Nilson Barcelli disse...

Priscila, querida amiga, tem um bom domingo.
Beijo.