2012-09-17

Infinidade de combinações



Houve um momento grande, parado, sem nada dentro. Dilatou os olhos, esperou. Nada veio. Branco. Mas de repente num estremecimento deram corda no dia e tudo recomeçou a funcionar (...) Fechou os olhos (...)  e ao som da música inexistente e ritmada ergue-se na ponta dos pés.

LISPECTOR, Clarice


A imaginação de escritor quando razão e emoção, amor e ódio, ora jardim, ora sem os cômodos, em fragmentos explica essa mágica do que não é fácil. A boca de todas as casas, o crítico das épocas, perto da intuição, e com assombros e sobressaltos, a nobreza pesca para o tecido do real. Se ler livro de chegadas e partidas – entranhado alegrias e angústias de seu cronômetro. A procurar nas brechas, a cada página, nas obrigações e proibições impostas criar dentro do silêncio, e possa fazer ouvir o in/disponível: o resultado. No difícil de um nós desmembrar para respirar o ar de um tempo, o qual os espelhos refletem o que há dentro e com pausas. A linda leitura cuidadosa para não haver perdas. Como um homem e uma mulher que se aproxima perto do olhar da varanda, e descobre que há um quarto com uma lógica de proximidade e não de propriedade. E entre as viagens, o crepuscular aos vastos horizontes, como arqueiro fiel a prestar votos, reverência à direção do ninho. Na habitável selva da vida conhecendo a pele e deixar pelo quarto, não as estórias, mas a memória relatar onde há residência de uma comunicação que vigia as notas, cujo presente faz dos sonhos o flori. O dentro de si a metamorfose apontar a colheita inteligente para não compreender o que é incompreensível. Abrir a gaveta da personalidade que não ignora a letra rabiscada; admitir que a maior parte dos diálogos não busca encobrir as feridas. Que não dissolve o mistério do ontem, hoje e amanhã. As muitas fotografias em preto e branco são sementes e anunciam chuvas ante a fome. O espermatozóide da vitória fala expansão, sentimentos encontrados se readaptam e enlouquece sabiamente a bússola que norteia o intervalo entre duas claves. Abri ao mover pelos aposentos profundos, sozinho ao breu da noite e revela a si toda a diferença de cada dia e noite; fortalece o ir adiante perante o caos orgânico. Não impede as cortinas o baile. A janela da alma jorra as palavras vindas da linguagem, da fonte, e da própria nostalgia. As tardes de costura com pensamentos arejados partilhados, em nada óbvio, como um cavalo, solto e disparado, em busca do encantador que é parte de um todo. O manter na vibração, reencontrando a escuta dos olhos, ao silente para a verdade ser revelada. No silêncio dos pensamentos enxergar o ato sagrado das interrogações. O olhar da consciência que fixa, lança sensações e descobertas, aproxima do selvagem coração da vida, intraduzível numa única língua.   A comunhão do consigo tocando a presença da máquina sem poeira. O silêncio com suas orelhas à escuta da constatação: a saudade é recomeço. Clareia o como se faz uma poesia ser bonita.

Canteiro Pessoal


readaptação do “Nostalgia” de Moacir Willmondes

3 comentários:

Canteiro Pessoal disse...

Will, Nostalgia foi inspirador!

Abraços

Will Moa disse...

Nostalgia foi um daqueles mergulhos que damos dentro do espelho do lago que inerte dentro de nós, nos incomoda e convida a agitar suas águas.

Agora, tua readaptação, foi muito além, levantou ondas, inundou vales, e por fim mostrou que a vida é uma gota capaz de transbordar o cálice das sensações.

Perfeitas, tuas colocações!

Nilson Barcelli disse...

A imaginação, aliada à criatividade, é um dos "segredos" do escritor. Mas ele também se vale do impulso de muitas das palavras que usa, para achar outras palavras e, através disso, imaginar e crirar coisas que antes nem tinha pensado.
Gostei do texto, muito bom.
Priscila, minha querida amiga, tem um bom fim de semana.
Beijo.