2012-10-13

duas chuvas


Imagina que após degustar o interior recheado de códigos e enigmas, as mãos deliciam o corpo em olhos. E na fragilidade de conhecimentos e desconhecimentos, pela intensa profundidade de ser, narra-se amor e mistério, a grandeza da condição de estar à procura da montagem humana. A linguagem que não se esgota no laboratório das curvas. E é remoldável desde o início, aos gêneros que comungam com o real e surreal. A mistura que esmaga os insetos, lança para dentro e para fora do ser humano o aroma da morte, que se manifesta às ocultas. O viço das manhãs na densidade de uma reflexão exuberante com a coragem de aceitação. A aparência da simplicidade rebuscada ao tambor epifânico. Das variadas fragmentações em consonância ao louvor às pequenas belezas até as rotineiras indagações. E ao ar sem lamentos, regressam cheias de grande comunicabilidade frente aos registros. Ainda que nada saia como previsto, seja inaugurado o pensamento a fazer sentido, um excelente cutucar na geografia corporal, perplexo diante as preferências no caminho da evolução.  O pássaro de fogo que tem sangue eterno e asas ritmadas, a se banhar na travessia entre dia e noite, com o gozo do vento a pousar o ouvido nas nuvens. E renasce o olhar nu no oceano de dentro do tempo, ao parto mudo das formas, onde semeia a leveza gaiata da carne. Tudo é tudo, e empurra os ventos por onde se anda, lentamente para o orgânico da utopia imaginada. A canção com sopro imenso ao gosto da gota que se equilibra. E a natureza selvagem se liberta do nós, porque se perde ao sabor de terra, mesmo com febre e lágrimas. O ser que observa e é observado com o impacto que desmorona e  edifica o poetar de sangue em mãos. A abertura da noite que desfolha-se e em suspiro das madrugadas se imortaliza: de onde vem a música? A música que tinge o enlevo para imensidão do ato. O morrer abençoado por Deus que não encobre as faces. E o espelho revela nas pedras do desejo e de tamanha renúncia, as mãos sem força em cima do mar.  Acendalha sonhos e sabedoria; anuncia o pronto a cair, pronto a ficar – límpido e exato. As letras, as datas, destrutivas e construtivas, com a persistência nos aléns da saudade, que faz renascer os ventos adversos, para o desenho da vida, de pólo a pólo, a preservar o retrato da nudez.   

Canteiro Pessoal 

Cecília Meireles

readaptação  do "Imagina!" de Nimbypolis 

3 comentários:

Canteiro Pessoal disse...

Barcelli, "Imagina" fez-me ultrapassar o por trás do espelho para fazer uma leitura que avança e decodifica o que há por dentro do ser que não é observado.

Abraço

Nilson Barcelli disse...

Acho que conseguiste passar para trás do espelho sem o partires.
Porque foste brilhante na "desconstrução" do invisível.
Um beijo, Priscila.

Moacir Willmondes disse...

Tens o sentido dos pássaros, Priscila. Sabes descobrir os lugares mais sutis para construir teus ninhos de ideias, é onde as estações se mesclam para dar sentido ao pouso da vida...

Abraço!